FLORES O ANO INTEIRO

Por Thaís Pompeo

FLORES O ANO INTEIRO

Maria Emilia é uma alagoana que gosta dos grandes números. Criou sete filhos, “todos do mesmo home”, acrescenta rindo. Entre as atenções dispensadas para a família, ela arrumou tempo para cuidar de si, literalmente, cultivando as flores do seu jardim. O zelo virou paixão e a paixão virou um bom negócio. Hoje, Emilia tem uma produção respeitável – 35 hectares de flores tropicais – e acaba de importar 64 mil mudas de antúrios, vindas diretamente da Holanda.

]Tudo começou há 28 anos, quando recém-casada, Emilia foi morar com a sogra, que colecionava plantas como hobby, no município de Coruripe, no interior de Alagoas. Com a convivência, criou intimidade e apreço pelo jardim da mãe do marido e descobriu ali um dos seus maiores tesouros: a arte em cultivar flores tropicais.

Emilia relembra os seus desejos na hora de ter sua própria casa: “Eu não pensava no projeto, na decoração, só pensava no jardim. Foi tipo um feitiço que pegou”. Como a casa era no campo, pôde fazer o jardim do tamanho que queria. Virou dana da casa e recebeu a sogra como hóspede, junto ganhou todo o jardim da colecionadora.

Para organizar as plantas, contratou um paisagista que ficou muito surpreso com as espécies que encontrou na casa de Emilia: um jardim de tirar o fôlego, onde muitas plantas ele mesmo desconhecia. “Minha sogra adquiria mudas de planta por todo lugar que passava e era muito presenteada com plantas também. E eu fiquei fascinada e já fiz loucuras. Inclusiva paguei R$ 400 por uma única muda de helicônia Amazonita”, hoje uma das flores mais valiosas do seu cultivo.

DO LADO DE FORA DO JARDIM

As flores de Emilia estrearam no casamento do cunhado, o pecuarista Mauro Paiva, irmão do marido Marcio Silvio, proprietários do Nelore SMP. Cores fortes das plantas tropicais decoraram a festa, onde predominaram os antúrios. Os arranjos fizeram tanto sucesso, que em seguida um decorador entrou em contato com Emilia: queria realizar um casamento com as mesmas flores, no mesmo estilo. “Mas eu não tinha nem um parâmetro de preço. Então apenas pedi para que ele fizesse um agrado para o meu jardineiro”, conta Emilia, que não cobrou nada. Entretanto, o interesse despertou nela a possibilidade de transformar seu jardim em negócio.

Na mesma época, a principal decoradora de Alagoas, Eva Amaral, abriu uma floricultura - o primeiro local de comercialização das plantas do jardim de Emília. Com a loja, Eva Amaral não somente deu início a uma nova tendência - o uso de flores no dia a dia, que até então só eram utilizadas em casamentos e funerais como também colocou na moda as exóticas plantas tropicais onde só se fazia uso das flores temperadas, como rosa, gérbera e crisântemo.

Animada com o novo negócio, Emilia foi atrás de novidades na feira de Holambra, evento especializado em flores, no interior de SP. Lá conheceu os arranjos do conceituado artista floral Alfredo Tilli, “eu vi aquilo e falei: ‘poxa meu irmão, esse arranjo ficou lindo!’”. Na mesma hora Emilia convidou Tilli para ministrar um workshop de arranjos em Alagoas. Resultado: o curso foi um tremendo sucesso e 70% das pessoas que participaram viraram produtoras de flores.

Foi um boom: A produção dos 20 floricultores culminou na criação de uma associação e o crescimento vertiginoso de vendas, principalmente para o exterior, obrigou à formação de uma cooperativa, que chegou a exportar para Suíça, França, Inglaterra e Portugal.

FLORESCENDO

Grande parte dessa produção saía do jardim da Emilia, que nessa época só pensava em multiplicar mudas e arranjar novas variedades de plantas. Nas viagens de férias com o marido, o tema era um só: lugares que tinham plantas tropicais. O jardim foi crescendo para dentro do campo de futebol, do pomar, até chegar a um hectare de repleto de formas e cores exóticas. “Eu vendia tudo o que plantava. Chegamos a comercializar 1700 buquês por semana para Suíça”, lembra.

Nessa época, ela adquiriu uma área, praticamente dentro de Maceió, para quadruplicar o plantio. Um novo desafio que animou a produtora: Emilia pegou as mudas do jardim de sua casa e transformou os quatro hectares em uma produção profissional, com canteiro e rua, tudo com irrigação com tecnologia israelense.

Nos dois cultivos, grande parte das espécies são da família da bananeira, como a helicônia e a musa, plantas que se desenvolvem em touceiras, relativamente protegidas pela vegetação mais alta. “As minhas flores são originárias de mata fechada, como a floresta Equatorial e a Tropical. Por isso, no meu cultivo, eu simulo um ecossistema assim, sempre com árvores mais altas para produzir a sombra, calor e a umidade que a planta precisa. Para acelerar a produção de flores, fazermos podas nas copas das árvores mais fechadas, possibilitando assim a entrada de mais luz solar e ventilação”, Explica Emilia.

Em uma das viagens atrás de novas espécies, Emilia foi à Costa Rica – o maior produtor de plantas tropicais do mundo. “Chegando lá eu fiquei deslumbrada. Na Costa Rica não tinha nenhum plantio de quatro hectares, era só de 30/40 hectares. Com uma novidade: todas as fazendas plantavam 50% de folhagens, 50% de flores. Quando voltamos a Maceió, perturbei meu marido e ele conversou com o pai dele, que cria gado, a me disponibilizar 30 hectares da Fazenda Serra Azul para eu fazer o meu plantio!”, relembra.  Hoje as flores de Emilia colorem um pedaço do pasto que abriga as doadoras do Nelore SMP.

Pronto, estava montado as três áreas de plantio: os 30 hectares na Serra Azul, um hectare de sua casa de campo e os quatro hectares dentro de Maceió, que hoje funciona como o único mercado de flores da cidade. E mesmo assim, ainda vende tudo o que planta: principalmente para os estados de São Paulo, onde tem o Box no Ceagesp paulistano, e em Minas Gerais. Tem exportado menos, porque com a valorização do real, tem valido mais a pena saciar a demanda interna, que ainda é latente. Atualmente, Emilia é uma das maiores produtores de flores tropicais do Brasil, produzindo 200 mil hastes de flor e folhagem por mês. “Hoje em dia não estamos mais crescendo em área, crescemos apenas verticalmente com otimização e aprimoramento de tecnologia. Aumentamos a produção em cerca de 10 a 15% ao ano, principalmente por causa do plantio de antúrios”. Os antúrios que Emilia se refere são as 64 mil mudas que importou da Holanda, seu mais novo investimento, que custou R$ 300 mil, junto com a construção da estufa. Essas mudas são produzidas em laboratórios e possuem uma gama maior de cor.

Segundo Emilia, tudo que ganha ela reinveste na produção. Uma mulher feminina e de fibra que encontrou na exuberância das flores a energia para reabastecer a fonte central do lar. “Eu acho que a mulher tem essa força, tem essa habilidade de se virar no ‘30’. Mas além desse dom feminino, eu só consegui progredir com muito trabalho e amor no que faço; e fé com em Deus, que foi abrindo os caminhos e renovando minhas forças”. Não é por acaso, que para Emilia, tudo são flores.

MANEJO

A maioria das flores tropicais são perenes. Normalmente dão em touceiras, que tem em média cinco hastes. Cada uma delas dá uma flor, corta-se, a haste, que volta a brotar. Neste momento, a outra haste já tem um botão, e assim sucessivamente, produzindo flor o ano inteiro. O cultivo é a céu aberto com muitas árvores para simular o ecossistema similar ao de uma mata, de onde elas são nativas, com temperatura com média de 28º e umidade em torno de 80%, características do clima de Alagoas.

Em 24 horas do inicio da colheita as flores chegam ao consumidor final. Para isso Emilia emprega 1,5 funcionários por hectare. A colheita começa às 5 horas da manhã e vai até, no máximo, às 9 horas. Depois as plantas vão para o galpão onde são lavadas, hidratadas, recebem tratamento sanitário e são embaladas, seguindo imediatamente para os seus destinos finais de avião.

Revista Bureau

Nº 14 – julho/agosto 2011

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