O exótico na forma de flor

Revista Produz / Edição n° 40 / Junho de 2009

O exótico na forma de flor
O exótico na forma de flor. Maria Emília iniciou a produção de flores tropicais para curar uma doença emocional e hoje é referência na produção nacional.

O agronegócio de flores e plantas ornamentais é um segmento ainda pouco expressivo no país devido ao baixo consumo per capita. Isso se deve ao fato que a compra de flores ainda está muito ligada a determinados eventos (funerais, casamentos, dia dos namorados etc). Além disso, a pouca quantidade de floriculturas e a logística de distribuição (como compartimentos em aviões) são outros fatores limitantes para esse mercador.
Apesar das dificuldades, a atividade vem ganhando espaço na economia do país. Um dos aspectos que contribui para essa expansão são as condições climáticas do Brasil que favorece o cultivo de flores de clima temperado e tropical. Por causa dessa diversidade do clima é possível produzir flores, folhagens e outros derivados, todos os dias do ano a um custo reduzido. Além de ser uma atividade econômica relevante, o principal aspecto positivo é a produção, em sua maioria, é dominada por pequenos produtores rurais, contribuindo pra uma melhor distribuição de rende e crescimento social.

A geração de renda e ocupação da floricultura é enorme e emprega, aproximadamente, 120 mil pessoas, sendo que 80% da mão-de-obra é formada por mulheres, além de 18,7% do total ser de origem familiar. Entre as outras culturas agrícolas, a floricultura destaca-se por empregar uma média de 10 a 15 funcionários por hectare, superando em 10 vezes os demais cultivos do agronegócio.

A produção brasileira está concentrada no Estado de São Paulo, que detém 74,5% da produção nacional, tendo como principais pólos as regiões de Atibaia, Grande São Paulo, Dutra, Vale do Ribeira, Paranapanema e Campinas. Além de produtor, o estado é o maior consumidor e exportador das flores e plantas ornamentais do Brasil.

Dedicação e esperança

Há 20 anos, Maria Emilia Accioly, foi morar com a sogra, que colecionava plantas como hobby, no município de Coruripe, interior de Alagoas. Por meio dessa influência, ao mudar pra sua própria casa, ela já havia se interessado em cultivar plantas tropicais e levou consigo alguma mudas. Na época, conheceu um paisagista que a ajudou a organizar seu jardim. O mesmo ficou deslumbrado com algumas espécies de plantas. “Todas eram da Mata Atlântica, algumas colhidas, outras ganhadas ou compradas. Haviam muitas espécies que ele não conhecia e não tinham nem identificação científica”, conta ela.

Foi esse paisagista quem deu a idéia de transformar o hobby em um negócio. Mas os filhos foram crescendo, e Maria Emilia e o marido precisaram voltar para Maceió, pra que os mais velhos pudessem terminar os estudos já que no interior só havia ensino até o primário. “Nessa época nasceu meu sexto filho e, em conseqüência do parto, tive depressão. Com meu estado emocional abalado, senti a importância do meu contato direto com as flores porque junto à elas me sentia revitalizada”, relembra a produtora emocionada.

Em meio dessa doença, o marido de Maria Emilia resolveu adquirir uma propriedade de quatro hectares na periferia de Maceió. Encantada com a nova aquisição, a produtora contratou uma empresa, com tecnologia israelense e especializada em irrigação, e o jardim passou a ter caráter de negócio profissional. “O que era jardim passou a ser cultura e o que era doença passou a ser esperança. Deixei meu emprego de assistente social e passei a ser jardineira”, afirma. As plantas, que antes serviam para enfeitar a casa e presentear amigos, passaram a ser vistas como um negócio lucrativo.

Depois de cinco anos do inicio de seu contato com as flores, Maria Emilia começou seu plantio voltado para o mercado. Para adquirir experiência, a produtora foi pra São Paulo visitar uma feira de flores onde conheceu o artista floral Alfredo Tilli. “Convidei o Alfredo para vir para Maceió me ensinar a divulgar o meu produto, que quando utilizado de forma adequada agrega outro valor”, conta. Após isso, foi criada na capital uma associação sem fins lucrativos, para troca de experiências entre os produtores, a Afloral – associação de Produtores de Flores e Plantas Ornamentais Tropicais do Estado de Alagoas.

Depois foi criada uma cooperativa focada na comercialização da produção, a Comflora – Cooperativa dos Produtores e Exportadores de Plantas, Flores e Folhagens Tropicais de Alagoas, que chegou a exportar para vários países da Europa. Hoje, Maria Emilia já não faz mais parte da cooperativa, atualmente composta por 20 filiadas, as chamadas “Valquírias”. Ainda assim, ela se anima com o resultado obtido pela entidade e mesmo por outros produtores do estado. “Hoje somos mais de 40 produtores que, diversificando a monocultura que predomina em nosso Estado e abrindo novos empregos no setor de agronegócio, que mais emprega por metro quadrado, somos referência nacional”, comemora.

Com 36 funcionários, Maria Emilia administra três plantações, vivendo em meio de baldes, caixas de papelão, mantas térmicas e muitas flores. A média de sua produção é em torno de 173 mil hastes de flores e folhagens por mês, totalizando cerca de 43 mil hastes por semana. “Lutando muito para conciliar o cuidado com os filhos, o trato da casa e a profissão que abracei, fui ultrapassando os obstáculos diariamente. Durante esse tempo, nem tudo foram flores, mas foram essas flores que mudaram minha vida”, compartilha.

Mercado

Com o crescimento de seu negócio, Maria Emilia conquistou clientes em São Paulo, Santa Catarina, Brasília, Piauí e Maranhão. No mercado externo, sua produção chegou a ser exportada para Suiça, Portugal, Inglaterra e França. Inclusive foi uma cliente francesa que introduziu um novo produto: o buquê. “Passamos a vender não só as hastes das flores, mas também os buquês prontos para os supermercados, com cerca de cinco flores e cinco folhagens”, conta. Por intermédio da Comflora, o número de exportações para Suiça chegou a 1700 buquês por semana.

De acordo com a presidente da cooperativa, Branca Rosa, no momento a produção está focado no mercado interno. “Nesse ano exportamos para Zurique (Suíça), Lisboa e Porto (Portugal) e Houston (EUA). Tem até uma empresa que quer comprar de nós para enviar à Portugal, mas ainda estamos em conversação. Vamos entrar de novo na batalha pela exportação”, planeja Branca. De acordo com os dados do Ibraflor – Instituto Brasileiro de Floricultura, no ano de 2006, o Brasil acumulou quase 30 milhões de dólares com a exportação de flores e plantas ornamentais, registrando crescimento de 15% em relação ao ano anterior.
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